domingo, 17 de agosto de 2008

QUEM? - Fátima Irene Pinto


Foto: Shark

QUEM?
Autora: Fátima Irene Pinto

Quem nesta vida já não se sentiu assim
Sem rumo, perdido, rendido
Às contingências do momento?
Quem já não experimentou estas fases
Onde tudo é desalento
E embora abrigado, cercado de gente,
Continuou absolutamente só
Qual se estivera ao relento?


Quem já não se perdeu do passado?
Quem já não ficou sem vislumbrar futuro,
Sem sentir um medo atávico
E ver-se assim totalmente inseguro?
Quem já não ficou sem saber o que fazer com o agora,
Levado pela correnteza da vida incerta,
No malogrado ajuste do ponteiro das horas?


Quem já não se perdeu de Deus, após tê-lo encontrado?
Quem já não se perdeu do filho, após tê-lo criado?
Quem já não secou por dentro, após ter muito amado?
Quem já não se perdeu no caminho que parecia adequado?
Quem já não experimentou um medo visceral da morte?
Quem já não tremeu diante de uma súbita virada da sorte?
Quem já não teve todos os planos e sonhos desfeitos?
Quem já não se viu lesado nos seus mais legítimos direitos?


Quem já não se viu órfão de toda a esperança?
Quem já não se viu, de repente, sem guiança
Sem rumo, sem bússola, sem farol, sem diretriz,
Quem já não se sentiu um dia, desesperadamente infeliz?
Quem já não se sentou à beira do caminho, extenuado
Vendo a vida passar, como filme apenas, projetado
Na ínfima condição de mero expectador isolado
E nada mais reivindicou neste momento,
Senão a suprema bênção de poder ficar calado?


E poder então soltar o passado
Não temer mais o futuro
Abdicar de vez do agora
Voltar ao estado original
Após ter fechado um doloroso ciclo
Fazer-se pronto para mais uma volta
Da infinita espiral !


Fátima Irene Pinto®
Do Livro 'MOMENTOS CATÁRTICOS

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

AS SEM-RAZÕES DO AMOR -- Carlos Drummond de Andrade)




As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
(Carlos Drummond de Andrade)


SOU MULHER - Autora (Ivone Boechat)




SOU MULHER

Sou mulher,
com as aflições e a inspiração do poeta,
o esplendor e a serenidade... das mães!

Sou uma canção de ninar!
Experimentadora dos sabores do tempo...
Estrela da constelação familiar.

Sou letra e música da canção
do mais puro sentimento,
que a mulher é capaz de cultivar.

Sou feita com a síntese
do segredo de amar!
Tenho duas fases: minguante e cheia,
assim como o luar!
Autora(Ivone Boechat)

O TEMPO - Mário Qintana




O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana

terça-feira, 30 de outubro de 2007

SENTIMENTOS - Luzi Rocha


Sentimentos
(Luzi Rocha)


O que chega em meu coração?
Será amor?
Será paixão?
Será outro sentimento que não esses?

O que sei é que algo machuca
Dói, atordoa-me, confunde-me

Tão longe e tão perto
Paradoxo que preferia a inexistência
Longe, o físico
Perto, o sentimento

Sentimento que me embriaga
Deixa-me triste e contente
Eufórica e calada
Sensível e forte

Sentimento incomum
Sentimento do paradoxo
Sentimento inefável
Sentimento sufocante

A verdade é que não posso e não ~quero fugir
Arriscarei as minhas lágrimas
Meu coração
Minha alma já sofrida

Já faz parte de minha vida
Da minha mente
Das palavras que saem da minha boca
Das lágrimas que saem dos meus olhos

É busca incessante
Busca pelo nada
Busca pelo tudo
Busca pelo que ainda resta

O que sei é que sinto
Sinto germinar
Sinto florescer
Sinto tomar conta de mim

O futuro pode ser incerto
Talvez amargo
Mas, o gosto que sinto nesse instante
Já vale infinitas vidas

Vidas sofridas
Vidas felizes
Vidas sublimes
Vidas amargas

Não posso deixar de senti-lo
Sentimento intenso e confuso
Que machuca e me faz feliz

Estou condenada a sentir-te
E não quero me livrar dessas correntes
Quisera eu poder te tocar
Mas, sentimentos vivem na alma e no coração
E, apesar de tudo, prefiro apenas te sentir
Para jamais ter que te perder...

O AMOR - Nathalia Nasci

O amor não é uma palavra tola
Que se diz sem pensar
São estranhos sentimentos
Que se sente sem falar
O amor as vezes passa
Sem que o possa perceber
O amor é tão sem sentido
Que quem sente
Faz coisas sem querer
O amor não tem hora
Para chegar
As vezes chega tarde
Quando não há mais espaço
Para entrar
O amor não sabe de fronteiras
De estradas ou de lugares
Não mede consequencias
Não tem hora para amar
Perdidos entre as pessoas
Da razão ao sorriso
Ou ao chorar
O amor se esquece de provações
Tudo ele pode perdoar
Permite reconciliações.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

DA MINHA JANELA - Florbela Espanca





Da minha janela

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito e murmurado...
Ovo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!


Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado...
Ó meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!


Meu verso de Samain cheio de graça,
Inda não és clarão já és luar
Como branco lilás que se desfaça!


Amor! teu coração trago-o no peito...
Pulsa dentro de mim como este mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...

(Florbela Espanca)